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Não
posso dizer que tenha ficado feliz com a morte do Epifânio de Moraes Netto. Mas
triste também não fiquei.
Li a notícia nos jornais, numa
banca de revista perto de casa, em Copacabana. Foi encontrado no quarto de um
hotel de luxo em São Conrado, estirado no chão, de bruços, ao lado de um copo
caído, com resto de bebida. Sobre a mesa do quarto, uma garrafa de uísque,
quase vazia.
Depois
da perícia, o delegado afirmou, em entrevista coletiva, que a morte foi causada
por envenenamento. Estricnina. Alta dose de estricnina, injetada no pescoço da
vítima.
Não
é todo dia que um famoso escritor de livros de autoajuda é assassinado. A
imprensa não falava de outra coisa. Sou apenas um detetive particular, com um
escritório na Rua do Lavradio montado de improviso na sala da casa de um velho
amigo, e é claro que ninguém veio me entrevistar sobre o caso. Se viessem, eu
diria a verdade: Epifânio era um canalha.
Eu o conheci pessoalmente, faz
um bom tempo. Há onze anos, para ser exato. Eu tinha vinte e seis na época e
namorava uma garota chamada Raquel. Foi ela quem me apresentou o Epifânio, que
acabara de lançar o primeiro dos seus vários best-sellers, uma porcaria com o título mais porcaria ainda: As flores do bem. Canastrão de marca
maior, completo e absoluto enrolador. E muita gente ia na onda do cara,
inclusive minha namorada.
Além
de escritor, Epifânio era psicólogo (desconfio que falsificara o diploma). Por
sugestão da Raquel, meu irmão me pagou uma consulta com o sujeito, que cobrava
caríssimo. Meu irmão era rico.
Naqueles tempos eu tinha,
digamos, um problema: se começasse a ler um romance policial, só fechava o
livro ao final da história. Eu era um leitor compulsivo de romances policiais.
Vivia sendo demitido do emprego por ler durante o expediente. Não era como um
leitor comum, aficcionado pelo gênero mas que consegue interromper a leitura,
fechar o livro e voltar mais tarde, não, eu só deixava o maldito livro quando
acabasse a maldita história. Raquel chegou a sugerir que eu seguisse o conselho
dos Alcoolicos Anônimos, ligeiramente adaptado: evite a primeira página. Hoje
estou curado.
Nem preciso dizer que odiei a
consulta. Não sabia em que ramo de atividades o Epifânio era mais picareta, se
como escritor de livros de autoajuda ou como analista. E não foi só isso, ele
andou aprontando coisas piores, embora esta seja uma outra longa história.
Onze
anos depois, o cara é assassinado. De manhã havia faltado a um programa na
televisão e seus assessores ficaram preocupados porque ele não atendia o
celular. Por volta de meio-dia decidiram entrar no quarto e lá encontraram o
corpo, vestido num roupão de seda.
Sobre a cama, a polícia
encontrou um exemplar usado de A
irmãzinha, do Raymond Chandler. E na parede do quarto o assassino grafitou,
com spray vermelho escuro, num tom que lembrava cor de sangue: X-9.
.
“Cinquenta
mil. Nada mal se a gente pudesse colocar a mão nessa grana. Bem que estamos
precisando”, o Gordo disse, jogando um jornal sobre a minha mesa.
Eu estava
ao telefone, com uma cliente, e não dei atenção. Assim que terminei a ligação
ele insistiu.
“Já leu? A
viúva do Epifânio está oferecendo cinquenta mil reais pra quem fornecer alguma
informação que leve ao criminoso.”
O
Gordo era dono de um sebo, que funcionava na parte de baixo do sobrado na Rua
do Lavradio. A parte de cima, onde
estávamos, era a casa dele. Quando decidi deixar de ser guia turístico pelos
bares da cidade e partir de vez para o ramo das investigações, o Gordo ofereceu
a sala da própria casa para funcionar como meu escritório. Condição: ele seria
meu assistente nas horas vagas.
“Mas a polícia não disse que já
tinha um suspeito?”
“Tem nada. Os caras estão
perdidos.”
“Não temos a menor chance,
Gordo. Só a polícia tem acesso às informações, a gente fica de fora, vendo o
que sai na televisão e nos jornais, pegamos tudo de segunda mão, é complicado.”
“Você me decepciona, André,
francamente.”
Não respondi, fiquei esperando
que ele continuasse. O Gordo se levantou, foi até a estante e voltou com um
livro.
“Toma”, ele disse, colocando o
livro à minha frente, “pra refrescar sua memória.”
Era um exemplar surrado de Histórias Extraordinárias, de Poe. Eu
sabia o que ele queria dizer mas fingi que não. Fiquei quieto, olhando para o
livro e caprichando na minha cara de idiota.
Ele riu.
“Péssimo ator, isso é o que você
é”, falou, pegando de volta o Poe.
“Gordo, meu amigo, você não está
na sua livraria, afundado nas aventuras do cavalheiro Dupin pelas ruas de
Paris. Aqui é o escritório de um detetive particular de verdade, dá pra
entender?”
“Você é que não está entendendo.
Vou clarear suas ideias. Ouve bem:
Dupin, o primeiro detetive da história da ficção policial, o primeiro,
que vai servir de modelo pra ninguém menos que Holmes, Sherlock Holmes, Dupin
não precisava ir ao local do crime pra desvendar o enigma. Ele mal precisava
sair de casa! Cruzava as informações que chegavam até ele, era um cara esperto,
trabalhava com o que estivesse à mão.”
“É diferente. Dupin era um
personagem. E viveu, se é que posso dizer assim, no século XIX. Estamos no
XXI!”
“Não interessa. As pessoas
continuam matando pelos mesmos motivos que matavam antes: dinheiro, poder,
vingança. E os assassinos continuam cometendo os mesmos erros. E a polícia
também.”
Respirei fundo.
“O que você propõe?”
“Antes de mais nada, um chope no
Bar Brasil.”
.
O
garçom trouxe dois chopes, com colarinho.
“Bom,
o que sabemos é que o Epifânio foi envenenado no seu quarto de hotel, com
estricnina injetada na veia”, eu disse.
“Morte
horrível, sabia? O cara começa a ter espasmos, o corpo se contrai todo, fica
mais duro do que o rigor mortis
usual, e o rosto fica distorcido, com um riso que lembra o do Coringa. É o
chamado risus sardonicus.”
“Onde
você descobriu isso? Andou pesquisando?”
“Não
foi necessário. Bastou recorrer à minha prodigiosa memória. Em O signo dos quatro um sujeito é
assassinado com um dardo envenenado e fica assim, o corpo todo travado e um
sorriso no rosto. Watson dá logo o diagnóstico: estricnina ou alguma substância
semelhante.”
Fiquei
imaginando a cara do Epifânio, morto. Ele sempre saía nas fotos com um sorriso
posado, completamente artificial. Teria morrido com o mesmo sorriso?
“A
garrafa de uísque, quase vazia, isso te diz alguma coisa?”, perguntei.
“Diz
que ele estava bêbado quando foi envenenado. O que ele fez naquela noite, antes
de chegar ao hotel?”
“Pelo
que li no jornal, ficou horas numa sessão de autógrafos. Tinha acabado de
lançar um livro novo. Ficou na livraria até tarde, depois saiu pra jantar com
amigos. Dizem que chegou ao hotel de madrugada.”
“Então,
ele já chegou tonto no hotel. E resolveu tomar a saideira no quarto.”
“Saideira
mesmo.”
“Se
foi isso que aconteceu, o assassino pode ter entrado no quarto quando o
Epifânio já tinha tomado todas.”
“Questão
número um: quem poderia ter acesso ao quarto da vítima?”
“Um
funcionário do hotel. O gerente, a faxineira, um garçom, qualquer funcionário.
Qualquer um que tivesse a chave.”
“Ou
alguém que entrou com ele, Gordo. O cara levou alguém pro quarto e, quando já
estava pra lá de não-sei-onde, o assassino injetou o veneno no pescoço dele. Só
pode ter sido alguém íntimo. O Epifânio estava de roupão quando a polícia o
encontrou.”
“Ou
não. Pode ter sido uma garota de programa. Ou um garoto.”
“A
polícia já deve ter investigado isso. Se ele tivesse recebido alguma visita no
quarto naquela noite a polícia saberia. Bastava checar as câmeras ou interrogar
os recepcionistas do hotel.”
“A
não ser que fosse alguém que já estivesse no hotel. Um outro hóspede, alguém que não precisaria
passar pela recepção pra chegar ao quarto do cara. Vamos supor que o assassino
tenha planejado tudo antes, tenha pensado em cada detalhe. Ele fica sabendo que
o Epifânio vai fazer o lançamento do novo livro tal dia, no Rio, fica sabendo
hora e local. E de alguma maneira descobre onde o Epifânio vai ficar
hospedado.”
“Como
ele poderia saber uma coisa dessas?”
“O
cara poderia ter algum contato na editora do Epifânio, por exemplo, alguém que
tenha dito a ele onde o Epifânio ficaria hospedado. Ou alguém do próprio
hotel.”
“Resumindo,
a polícia precisaria ter interrogado todos os funcionários do hotel. E todos os
hóspedes.”
“Sim.
E talvez tenha feito isso. Mas não conseguiram encontrar o criminoso.”
“Há
uma outra hipótese. Suponhamos que o assassino tenha se hospedado no hotel já
com a intenção de matar o escritor, como você disse. Ele não conhecia o
Epifânio, não sabia como chegar até o quarto dele e dar uma injeção de
estricnina no sujeito simplesmente se apresentando e puxando assunto. Então ele
observa bem o uniforme dos garçons. Aí manda fazer um igual, se disfarça de
garçom e leva uma garrafa de uísque ao quarto do Epifânio.”
“O
Epifânio teria que ter pedido o uísque. E aí o pessoal da cozinha mandaria um
garçom do hotel, não o impostor.”
“A
não ser que o impostor batesse à porta do quarto e dissesse que se tratava de
um brinde, uma cortesia, agradecendo à celebridade Epifânio de Moraes Netto por
ter escolhido aquele hotel.”
“Epifânio
era um poço de vaidade, todo mundo sabia disso.”
“Então.”
“É,
pode ser.”
O
Gordo ficou em silêncio por um instante.
“Sabe
de uma coisa, André? Pensando bem, acho que você tem razão. Precisamos de mais
informações. Vou recorrer às minhas fontes.”
“Era
isso que eu temia.”
.
“Quem
está com o caso?”
“O
Almeida Salgueiro”, respondi.
Ele
deu um risinho cínico.
Pegou
o celular, colocou no viva-voz e digitou um número.
“Fala,
Gordo.”
“Grande
Clovis, meu ídolo.”
“Já
começou com sacanagem.”
“Como
assim? Um cara que tem a ideia genial de montar um motel-fazenda em Guapimirim
tem que ser meu ídolo.”
O Clovis era um velho amigo do
Gordo. Quando o conheci, era motorista de táxi e tinha um projeto maluco, de
transformar um sítio que recebera de herança da tia num motel-fazenda. O doido
levou a coisa adiante e acabou dando certo, estava ganhando muito dinheiro. Ele
dividiu o sítio em áreas menores, separadas por cercas-vivas, altas. Cada uma
dessas áreas tem um chalé. Ele aluga as áreas – que chama de territórios do prazer selvagem – como se
fossem quartos de motel. Está sempre cheio e não é barato.
“Diga lá, Gordo.”
“Sei que você é um cara ocupado
e vou direto ao assunto. Lembra que você me falou uma vez que um dos seus
clientes era um delegado do Rio?”
“Não tenho clientes. Tenho
hóspedes.”
“Lembra ou não?”
“Lembro. O Salgueiro.”
“Ele tem ido aí?”
“Costumava vir com alguma
frequência mas faz um tempo que não aparece.
Ele diz pra mulher que está de plantão na delegacia e vem pra cá, com a
amante. Ele tem uma amante em Guapi. Mas isso é informação sigilosa, Gordo,
você sabe disso.”
“Sei, claro.”
Silêncio.
“Não tem ninguém aí com você,
tem?”
“Lógico que não, meu camarada.
Sigilo absoluto.”
“Você colocou no viva-voz. E o
André está com você. No Bar Brasil.”
“Caramba, Clovis, se o
motel-fazenda falir você bem que poderia trabalhar com a gente!”
“Oi, André.”
“E aí, Clovis.”
“Seguinte, Gordo: não quero
complicação pro meu lado. O Salgueiro é delegado. Não me bota em encrenca não!”
“Fica tranquilo, Clovis. Só
queria que você arrancasse umas informaçõezinhas dele.”
“Informaçõezinhas? O cara vem
dos tempos da ditadura, Gordo, sabe lá o que é tirar informaçõezinhas de
torturador?”
“Ele não era torturador.”
“Certo, não era. Mas trabalhava
de delegado durante a ditadura. E além disso ele não vem aqui pra conversar
comigo.”
“Mas rola uma cervejinha de vez
em quando, que eu sei.”
“Você não presta, Gordo. Foi só
uma vez. O Salgueiro veio aqui, depois deixou a moça em casa e voltou pra tomar
umas cervejas comigo.”
“Você sabe onde ela mora?”, o
Gordo perguntou, retomando a conversa.
“Sei.”
“E pode levar a gente lá?”
“Não. Tenho muito apreço pela
minha vida, se você quer saber.”
“Tudo
bem, Clovis, vê aí o que dá pra arranjar. Estamos investigando o caso do
assassinato daquele escritor de autoajuda, você deve ter visto na televisão.”
“O Epifânio?”
“Sim.”
“Ele também é meu hóspede
regular. Quer dizer, era.”
“Sério? Por que não disse logo?”
“Você não perguntou.”
“Podemos ir aí no sábado?”
“Tranquilo, estou esperando
vocês.”
.
O Gordo desligou o celular e o colocou
sobre a mesa.
“A gente ainda não falou do mais
importante”, disse.
“Eu
sei.”
Pedi
mais dois chopes. O Gordo fez um sinal e o garçom entendeu que era para trazer
o de sempre, costeleta de porco defumada, com batatas cozidas. Kassler era o seu prato preferido. Pelo
menos no Bar Brasil.
“O
assassino quis mandar um recado.”
“Mas
que recado, André? E pra quem?”
Até
onde sabíamos, acompanhando as notícias na imprensa, a polícia estava
investigando o que parecia mais óbvio. X-9 é uma gíria conhecida, para dizer
que alguém é um traidor, um alcaguete. Começaram desse ponto: o assassino tinha
sido traído pelo Epifânio e resolveu se vingar. E quis deixar claro que se
tratava de uma vingança.
Epifânio
de Moraes Netto teve ligação com os militares, na época da ditadura. Ele não
gostava de falar sobre isso, mas a verdade é que duas ou três revistas andaram
insinuando que o safado tinha levado muita gente para o exílio ou a morte nos
anos 70, denunciando outros escritores e artistas, considerados subversivos
pelo regime militar.
O
Almeida Salgueiro era delegado naquela época, como o Clovis comentou, e sem
dúvida guardava a sete chaves uma boa lista de nomes. Deve ter corrido atrás,
buscando pessoas que de algum modo pudessem ter sido prejudicadas pelas
denúncias feitas pelo Epifânio. Certamente interrogou familiares e amigos de
gente ligada ao Partido Comunista ou a outras entidades de esquerda. Se alguém
poderia seguir bem essa pista, seria o Almeida Salgueiro.
“O
Epifânio traiu muita gente, além dos comunas”, o Gordo comentou, dando a
primeira garfada na costeleta.
“Eu
sei.”
“O
sujeito era um mau caráter, fazia qualquer coisa por grana, passava a perna em
todo mundo.”
”Mas
é preciso começar por algum lugar. Acho que o Salgueiro agiu certo, Gordo. Eu
faria a mesma coisa, começaria investigando a relação do Epifânio com os
militares.”
“E
será que ele descobriu alguma coisa?”
“Se
descobriu, não contou pra ninguém.”
“Isso
é o que nós vamos ver. Vou acionar uma outra fonte.”
“Outra
fonte. E você por acaso tem outra fonte além do Clovis?”
Ele
comeu um pouco da costeleta, bebeu um gole do chope e depois disse, me piscando
um olho:
“Você
sabe que sim.”
Levei
alguns segundos para entender.
“Não,
Gordo. Você não está querendo dizer o que acho que está querendo dizer, está?”
Ele
não respondeu.
“Putz!”
2
“Você
não sabe o assistente que tem, André.”
“Pior
é que sei.”
“Se
soubesse não faria essa cara.”
Respirei
fundo.
“Achei
que o Heleno estivesse aposentado.”
“O
Heleno nasceu aposentado. Cada um tem
uma vocação na vida, a dele é ser aposentado. Qual o problema?”
“Eu
não quis dizer aposentado de um emprego, como uma pessoa comum, quis dizer
aposentado dessa coisa que você inventou pra ele.”
“André,
meu camarada, você não entendeu. Quando conheci o Heleno ele era um homem
triste, amargurado, parecia um velho.”
“Parecia
não, Gordo, ele já era um velho.”
“Não
exagera.”
“Quantos
anos ele tem?”
“Não
perguntei. Acho que oitenta.”
“Acha?”
“Oitenta
e quatro. Pronto, o cara tem oitenta e quatro anos. Mas não parece, não mesmo.”
“Ele ainda bebe?”
“Socialmente.
Não seja preconceituoso, André. O Rubem Fonseca publicou um livro novo aos
noventa anos de idade.”
“Sabe o que eu acho? O Heleno já
nasceu meio gagá e foi piorando com o tempo.”
“Vou
provar que você está errado.”
“Pago
pra ver.”
“Paga
quanto?”
“Todos os
chopes que você conseguir beber numa noite.”
“Não
seja leviano, André, aposta só o que você tem condições de pagar.”
.
Heleno era
delegado, aposentado. Começou cedo. Pelo que o Gordo disse, foi um bom
profissional e encerrou a carreira sem nenhuma mancha no currículo. E também
sem nenhuma ação digna de nota. Foi um delegado correto, eficiente, que ao
longo da carreira fez um trabalho digno.
Depois de
se aposentar, continuou a amizade com vários colegas dos seus tempos de ativa.
E através dos colegas acabou conhecendo outros policiais, mais jovens. Na verdade,
era um velhinho simpático.
Eles se
conheceram na livraria. Heleno costumava perambular pelos sebos do Centro.
Gostava de romances vagabundos, desses de banca de revista. Lia de todos os
gêneros, espionagem, ficção científica, policial, mas seus preferidos eram os
eróticos.
Apareceu
na livraria quase na mesma época em que montei meu escritório na sala da casa
do Gordo, há três anos. Ficaram amigos e logo o Gordo lhe propôs uma espécie de
sociedade. Heleno leva os livros que quiser. Em troca faz um favorzinho ao
Gordo, de vez em quando.
“Você
transformou o velhote num informante. Isso não se faz.”
“Você não
entendeu a dimensão do meu gesto, André.”
“Diga lá,
qual foi a dimensão do seu gesto?”
“Quando
chegou na minha livraria, Heleno não estava muito bem. A mulher dele tinha morrido fazia pouco
tempo, não tiveram filhos, nenhum parente próximo.”
“Você
disse que ele tinha muitos amigos.”
“Sim, e
ainda tem. Mas naquele momento da vida o Heleno sentia saudade do tempo em que
era jovem, com uma mulher bonita, companheira, com um trabalho que ele adorava,
sentia falta de alguma coisa que lhe desse motivação pra encarar o dia-a-dia. E
eu podia ajudar nisso, poderia dar essa coisa a ele.”
“Sim, e
essa coisa foi transformar o cara num informante. Um espião. Um X-9, pra não
fugirmos do tema.”
“Nada a ver, você está
exagerando. Eu só quis arranjar alguma coisa que devolvesse a ele o gosto de
viver.”
“Isso está quase virando um
livro de autoajuda. Daqui a pouco vou desconfiar de que você quer ocupar o
lugar do Epifânio.”
Chamei o garçom.
“Vou ligar pro Heleno.”
“Ele sabe atender celular?”
.
Fui
ao banheiro, enquanto meu amigo tentava falar com seu informante.
Quando
voltei o garçom havia levado o prato do Gordo e trazido mais chopes.
“Tudo
certo. Vamos tomar um café amanhã à tarde.”
“E
você vai dizer a ele qual é sua nova missão.”
“Tudo
bem, André, pode continuar zoando. Eu pelo menos estou fazendo alguma coisa pra
colocarmos a mão nos cinquenta mil.”
“Ainda
tem o livro. Não falamos disso.”
“Que
livro?”
“A
polícia encontrou um exemplar do romance do Chandler sobre a cama do Epifânio. A irmãzinha. Você acha que era dele?”
“Duvido.
O Epifânio não tem cara, ou não tinha cara, de quem lê Raymond Chandler.
Sofisticado demais pra ele.”
“Será
que encontraram digitais?”
“Se
foi o assassino que colocou o livro lá – e tudo indica que foi –, não deixou
digitais.”
“E
por que o maluco teria deixado um livro, e por que esse livro, na cama do Epifânio?”
“Um
livro usado.”
“Pois
é, sua especialidade. Por que você acha que o assassino teria feito isso,
Gordo?”
“Pelo
mesmo motivo que grafitou X-9 na parede do quarto.”
“Faz
parte do recado.”
Ele
não respondeu. Ficou olhando para um ponto qualquer, sobre os meus ombros. Ia
me virar para ver mas desisti. Sabia que ele não estava olhando para nada em
especial, era o olhar de quem estava pensando.
.
Lá fora o movimento na rua anunciava a
hora do rush. Tinha anoitecido e nem
reparei.
Pedi
a conta.
“Já
vai?”
“Preciso
acordar cedo amanhã. Tenho uma reunião com um cliente novo. Marquei com ele às
oito horas, no Santos Dumont.”
“Santos
Dumont? Por que não marcou no seu escritório?”
“Era
muito cedo. Não quis te incomodar.”
“Não
foi por isso, fala a verdade.”
“Certo,
não foi por isso. Ele pediu pra ser no aeroporto. Vai viajar amanhã e só tinha
esse horário.”
“É
tão urgente assim?”
“Foi
o que perguntei, se não dava pra ser quando ele voltasse de viagem. O cara só
vai ficar uma noite fora do Rio, viaja amanhã e volta no sábado. Ele respondeu
que não, era justamente na noite em que vai ficar fora de casa que ele vai
precisar dos meus serviços.”
“Adultério.
O sujeito vai viajar e quer que você vigie a mulher dele.”
“Deve
ser.”
“Então
ele já desconfia de que vai virar corno nessa noite. Se já não virou.”
“Provavelmente
já virou. Ele deve estar precisando de um flagrante. Talvez tenha planejado
essa viagem justamente pra montar a armadilha. A mulher vai se encontrar com o
amante, aproveitando que o marido está fora, e eu registro tudo.”
“Molezinha.”
“Espero
que sim.”
“Agora,
André, depois desse vê se não pega mais trabalho por enquanto. É melhor a gente
se concentrar no caso do Epifânio.”
“Não
sei, Gordo, esse caso é um tiro no escuro. Tenho minhas contas pra pagar, não
sou um grande empresário do ramo livreiro como você.”
Ele
deu uma gargalhada, batendo com as duas mãos na mesa. Ao lado, um casal olhou
na nossa direção.
.
Andar à noite pela Mem de Sá e
arredores pode ser uma experiência traumática, dependendo de quem você seja. E
não só pela possibilidade de assalto mas pelas figuras exóticas que vai encontrar
pela frente. Eu já estou acostumado com os travestis performáticos, prostitutas
equilibristas e malucos de todas as linhagens. Gosto deles, se me cumprimentam
respondo com um sorriso, um aceno de mão. Alguns devem me conhecer também, de
vista, como um frequentador da área.
Não
era muito tarde, umas nove e meia talvez. Segui caminhando na direção do Circo
Voador, atravessei os Arcos e parei no
início da ladeira que sobe para Santa Teresa. Fazia tempos eu não subia por
ali. Não se deve ficar muito tempo sem ir a Santa Teresa, o Gordo costuma
dizer, e tem razão. Fiquei tentado, era só uma ladeira e poderia estar com
alguns amigos tomando umas cervejas, fazia tempo não encontrava a rapaziada.
Ter
conseguido resistir, bravamente, à tentação de esticar a noite em Santa Teresa
me deu uma sensação boa, de que eu tinha controle sobre a minha vontade, era um
cara responsável e tal, mas ao mesmo tempo confesso que me senti meio velho. E
o que era mais preocupante: não foi a primeira vez que tive essa sensação.
Continuei
caminhando até a Cinelândia, peguei o metrô e no caminho tirei da bolsa o
romance que estava relendo: A lua na
sarjeta, do David Goodis. Há pessoas que não gostam de reler romance
policial. Eu gosto, às vezes. Esse é um dos meus preferidos. Tem alguma coisa
no livro que me incomoda e comove ao mesmo tempo. Não sei direito, algo a ver
com a impossibilidade de fugir do seu mundo, ou do seu destino, sei lá. Algo
assim.
Nem
vi quando chegamos à estação Cantagalo. Peguei a saída que dá na Xavier da Silveira
e segui pela Barata Ribeiro até o meu prédio. Dez minutos depois eu entrava em
casa. Mal fechei a porta e o telefone tocou. Era a Ana.
“Você
o Gordo estão investigando a morte do Epifânio de Moraes Netto,” ela foi logo
dizendo.
Não respondi.
“Acertei ou não?”
Silêncio.
“Eu
sabia. Quando li que a viúva estava oferecendo cinquenta mil pra descobrirem o
assassino foi fácil deduzir: o André e o Gordo vão entrar nessa.”
“Você
acha que eu só penso em dinheiro, não é?”
“Não,
você pensa em cerveja também. E no Botafogo, quando o time está ganhando. E vez
ou outra, quando sobra um tempinho, acho que pensa em mim.”
“Não
é verdade. Penso em tudo isso mas a ordem de prioridades não é essa.”
“Sei.”
“Quando
é que você vem pro Rio?”
“No
outro final de semana. Nesse agora tenho uma reunião na editora, no sábado.”
“Reunião
num sábado?”
“O
dono da editora vai estar em São Paulo no final de semana e marcou essa
reunião. Ele mora em Nova York, eu te falei.”
“Não,
não falou.”
“Falei
sim, André. Não lembra?”
Minha
memória estava ótima e ela sabia disso. E sabia também que não havia me falado
nada sobre esse tal chefe que mora em Nova York.
Ana
é minha namorada. É formada em História mas acabou aceitando um convite de uma
amiga para ser preparadora de originais numa pequena editora, aqui no Rio. Seu
trabalho era receber os originais do livro e sugerir alterações ao autor,
quando fosse o caso. Nem sempre era fácil, alguns autores consideram seus
textos intocáveis, mas além de excelente leitora, Ana também tem um jeito especial
de lidar com as pessoas. Acabava dando tudo certo no final, e ela começou a
gostar do que fazia.
Com
o tempo, foi se destacando e chamou a atenção de editoras maiores. Uma delas,
de São Paulo, lhe fez uma bela proposta. Seria uma assistente editorial, com um
bom salário. Ela aceitou.
“E
você se comporte direitinho aí, viu? Nunca te falei, mas fique sabendo que não
é só você que tem informantes na cidade.”
“Fica
tranquila. O máximo que posso fazer é ir a um motel com o Gordo.”
“Motel?”
Expliquei
tudo, com uma voz que não disfarçava meu sono. Eu estava exausto e já deprimido
com a ideia de que precisaria acordar cedo no dia seguinte.
“E
como está indo a investigação?”
“Não
avançamos muito. Temos poucas informações, é difícil.”
“Aposto
que o Gordo vai lançar mão da sua arma secreta.”
“Sim,
uma arma meio enferrujada, convenhamos.”
“Não
fala assim.”
Ana
gostava do Heleno. Simpatizou com ele desde a primeira vez que o viu, numa
tarde de sábado, na livraria do Gordo. A simpatia foi recíproca e num gesto
galante Heleno foi até uma prateleira, pegou um livro e deu a ela, de presente.
Era uma edição quase nova de Estrela da
manhã, do Bandeira.
Conversamos um pouco mais,
amenidades – eu adorava conversar com a Ana, não importava o assunto –, e desliguei.
Agendei
o táxi para o dia seguinte, às sete e meia. Coloquei o despertador para as sete
e quinze. Eu sabia que teria que levantar da cama às pressas e em quinze
minutos estar lá embaixo e pedir ao motorista que não desse mole se quisesse
estar no Santos Dumont às oito. Não é muito longe mas o trânsito é sempre ruim,
mesmo a essa hora. Uma pessoa mais precavida colocaria o despertador para as
seis e meia e agendaria o táxi para as sete. Eu preferia trocar a precaução por
um pouco mais de sono.
Fui
dormir pensando no Epifânio. Eu sabia o quanto ele tinha sido um mau caráter,
um falso, que arrasou com a vida de muita gente e teve um fim merecido. Mas me
lembrei do Gordo dizendo como era horrível a morte por estricnina. Preciso
parar com isso, ficar sentindo pena de malandro, ainda por cima malando morto,
pensei comigo, antes de fechar os olhos.
3
Não gosto
de dirigir. E se gostasse, um Chevette caindo aos pedaços não seria exatamente
meu sonho de consumo.
Aquele
carro foi parar nas minhas mãos como pagamento por um trabalho complicado, que
me tomou bastante tempo, seis meses. Na hora de pagar, o cliente me disse, na
maior cara-de-pau, que não tinha dinheiro. Inventou uma história muito mal
contada, de doença da mãe e não sei mais o quê, e ofereceu o carro como
pagamento. Para não ficar no prejuízo, aceitei.
Quando
fui tirar o Chevette da garagem, notei teias de aranha no espelho retrovisor.
Deixei lá. Entrei, dei partida e levei horas para manobrar na garagem minúscula
e labiríntica do meu prédio. (O único labirinto minúsculo de que se tem notícia
na história da humanidade).
Era um sábado, dez da manhã, e o
Gordo me esperava na calçada, como combinado. Minha camisa já estava empapada
de suor.
“Dá
pra ligar o ar?”, ele perguntou, fechando a porta do carro.
Nem respondi.
“Tudo bem, vou imaginar que já
estamos no friozinho da serra.”
Seguimos pela Barata Ribeiro e
fomos pegando o caminho para o Rebouças.
“Grande Guapimirim, aqui vamos
nós”, o Gordo disse, quando entramos no túnel.
“Grande e Guapimirim são palavras que não combinam”,
falei, quase gritando. O barulho dos carros e as buzinas insuportáveis das
motos, com os vidros do carro abertos por causa do calor, impediam qualquer
conversa civilizada.
“Grande no sentido figurado”, o
Gordo gritou de volta. “É por lá que começaremos a decifrar nosso enigma.”
Esperei que saíssemos do túnel.
“Você acha mesmo que o Clovis
pode ajudar?”
“Minha intuição me diz que sim.”
A única coisa moderninha do meu
Chevette é um rádio com entrada para CD. O antigo dono devia gostar de música.
Seguimos a viagem ouvindo a Rádio Relógio. Eu tinha pedido ao Gordo que
baixasse alguma coisa na Internet, para a gente ouvir durante a viagem, e ele
me apareceu com uma hora de programa da antiga Rádio Relógio.
“Onde você achou isso?”,
perguntei.
“Sabia que você ia gostar.”
Eu adorava a Rádio Relógio.
Fiquei triste quando acabou. Quer dizer, ainda existe, mas não do mesmo jeito.
Ouvi dizer que foi comprada por uma igreja.
A
voz do locutor soou nostálgica:
Você sabia que o coração da baleia da
Groelândia pode pesar até cinco toneladas? E que a palavra maricá tem origem no
Tupi, e significa capim de espinhos? Você... sabia?
E
uma inconfundível voz feminina entrava em seguida:
23 horas, 0 minuto, 0 segundo.
De volta o locutor:
Você sabia que rir durante o dia faz
com que você durma melhor à noite? E que é impossível espirrar com os olhos
abertos? Você... sabia?
Depois do Sol, quem ilumina o seu lar
é a Galeria Silvestre, a galeria da luz.
De
novo a mulher:
Radio Relógio. 23 horas, 2minutos, 0
segundo.
Enquanto
dirigia lembrei que a Macabéa, da Clarice Lispector, em A hora da estrela, ouvia a Rádio Relógio de madrugada, no seu
quarto de pensão. Ela dizia para o namorado que gostava de ouvir os pingos de
minutos do tempo: tic-tac-tic-tac-tic-tac.
A
própria Clarice gostava da Rádio Relógio. Colocava a máquina de escrever no
colo, acendia um cigarro e ficava escrevendo, ao som do tic-tac sempre igual.
Não sei se foi numa dessas vezes que aconteceu aquele incêndio que quase a matou
(ela dormiu, deixando o cigarro aceso, e o apartamento pegou fogo).
.
“E como foi ontem, com o novo
cliente?”, o Gordo perguntou, quando estávamos na metade do caminho.
“Se eu contar você não vai
acreditar.”
“Já ouvi muita coisa estranha
nessa vida. Uma a mais, uma a menos não vai fazer diferença.”
“O cara me disse que conseguiu
interceptar uma troca de e-mails entre a esposa e o amante, um amigo do casal.”
“Caso típico. O marido traído
pelo melhor amigo. Era o melhor amigo dele?”
“Não sei se o melhor, sei que
era amigo.”
“E como ele conseguiu ter acesso
a essa troca de e-mails?”
“Sei lá, não perguntei.”
“Ok, continua.”
“Ele me disse também que, pelo
que conhecia da mulher e do amigo, os dois deviam estar morrendo de culpa pelo
que estavam fazendo.”
“Mas continuavam fazendo.”
“Claro, ou eu não teria sido
contratado. O cara descobriu que eles estavam planejando um encontro na casa
dele, do meu cliente, no dia em que ele estaria viajando. Ou seja, ontem à
noite.“
“Mesmo se sentindo culpados eles
resolveram cornear o seu cliente na cama dele.”
“Foi o que eu comentei com o
cliente. Ele ficou olhando pro nada, meio aéreo, como se não tivesse me ouvido.
Depois disse: três coisas são difíceis de entender e uma quarta eu ignoro
completamente. Fez uma pausa dramática e completou: o caminho da águia no ar, o
caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau em pleno mar e o caminho do
homem na sua mocidade.”
“Uau.”
“É da bíblia. Quer dizer, ele me
falou que é um trecho da bíblia.”
“A mulher e o amante são jovens,
então.”
“Sim, na faixa dos vinte e
poucos.”
“E o cliente?”
“Uns quarenta, mais ou menos.
Posso continuar ou você vai ficar me interrompendo?”
“Sou todo ouvidos.”
“Ele me pediu pra ir à casa dele
à noite, com dois quilos de carne crua.”
“O quê?”
“Pro cachorro. A carne era pro
cachorro. Quando eu pulasse o muro.”
“Meu Deus.”
“Ele tinha deixado o alarme
desligado. Eu precisava pular o muro e dar metade da carne pro cachorro. A
outra metade ficava pra saída. Ele me deu uma cópia da chave da entrada dos
fundos da casa. O amante chegaria às oito. Eu devia entrar às oito e meia e
filmar o que fosse possível.”
“Você não bate bem da bola,
André. É o meu diagnóstico definitivo.”
“Eu faria a filmagem, com uma
câmera que ele me deu. Depois deixaria a câmara dentro do carro dele, na
garagem, junto com a chave do portão.”
“Onde é essa casa?”
“Gávea. Uma ruazinha ali perto
da PUC.”
“O cara é rico.”
“O que você acha?”
“Prossiga.”
“Agora vem a coisa mais doida
dessa história. Eu tinha que filmar os dois transando, flagrante mesmo, sem
deixar dúvidas, e quando eles estivessem completamente nus, no bem-bom, e eu já
tivesse filmado o suficiente, eu deveria chegar na frente deles, com a câmera
na mão, e dizer, com a maior naturalidade do mundo: olá, tudo bem aí?”
“Não acredito, você está
inventando.”
“Juro que não.”
O Gordo não parava de rir. Achei
que fosse ter um troço.
“E você topou uma coisa dessas?”
“Topei. Ele estava pagando bem.
Topei e fiz exatamente como ele pediu.”
“Inclusive com o olá, tudo bem
aí?”
“Tudo incluído, pacote
completo.”
“O que o seu cliente queria?
Matar a mulher e o amante de susto?”
“Eles levaram um susto mesmo,
Gordo. O cara ficou até com falta de ar. Achei que fosse ter um troço.”
“E você não socorreu ele?”
“Não era pra tanto. E se a
história já era maluca demais daquele jeito, imagina se eu tivesse que parar
tudo e levar o amante pro hospital.”
“É verdade.”
“Não fiquei pra ver o resto. Fiz
a minha parte, saí pela porta dos fundos, deixei a câmera e a chave no carro,
dei a carne pro cachorro e pulei o muro de volta.”
“Esse cara deve ser uma
figuraça.”
“Você entendeu qual foi a
vingança dele, não entendeu?”
O Gordo deu um tempo, respirou.
“Ele quis ferrar a mulher e o
amante acabando com a festinha deles. Além do susto, eles devem ter passado a
noite pensando: quem era aquele cara?”
“Eles podem ter imaginado que eu
fosse alguém a mando do marido, mas não podiam ter certeza. Além disso, podem
ter pensado: e se ele voltar? Se ele entrou na casa com tanta facilidade, pode
voltar outra vez.”
“Não devem ter tido uma noite
muito tranquila.”
“Nem um pouco. E ainda tem outra
coisa: como iriam encarar o meu cliente, no dia seguinte? O que a mulher iria
dizer a ele? E o amigo, quando o encontrasse? Deve ter batido o velho
sentimento de culpa.”
“Já estou ficando com pena da
mulher e do amante. Esse seu cliente é muito cruel.”
“A dúvida, Gordo, a dúvida foi a
arma que ele usou pra se vingar da mulher e do amigo. Se ele mesmo desse o
flagrante a história seria outra. Ele teria que tomar uma atitude. E o cara não
parece o tipo violento, não imagino ele dando porrada na mulher e no amigo ou
atirando nos dois. Não é um sujeito passional. O que ele fez foi proporcionar
aos dois uma noite horrível, justamente quando eles planejavam ter uma noite
maravilhosa.”
“E ele pode ser mais sádico
ainda, sabia? Pode voltar da viagem, dar um beijo na esposa e agir como se nada
tivesse acontecido. A mulher vai ficar completamente perdida: se não foi o
marido que mandou o cara com a câmera, quem foi então?”
“É o que estou dizendo, Gordo. A
dúvida, meu amigo, a dúvida. Arma poderosa.”
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