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Meu irmão não é de falar muito. Naquele dia, ele bem que poderia ter me contado a verdade sobre nossa irmã.
Era
uma tarde chuvosa, chuva fininha, caindo devagar. Estávamos na sala da
casa da minha avó. Não é uma casa muito grande, mas tem uma sala
cercada de livros por todas as paredes. Todas menos uma, com a janela
enorme, de vidro, dando para o pomar. Meu irmão estava de frente para
essa janela, olhando a chuva.
Deitado
no tapete, no centro da sala, eu lia a história de Robinson Crusoé.
Depois parei um pouco, levantei a cabeça e fiquei vendo as gotas
escorrendo pelo vidro da janela. Fileirinhas de formiga, pensei comigo.
Num
outro canto, na entrada da sala, nossa irmã procurava algum livro numa
das estantes. Perto dela, minha avó, sentada na sua poltrona, tecia uma
colcha de tricô, interminável.
Voltei
a ler. Eu me sentia muito bem ali. A chuva na vidraça, o silêncio, o
tapete macio, meus irmãos e minha avó por perto enquanto eu viajava
para uma ilha com Robinson Crusoé. O que mais poderia querer?
Então
me virei para perguntar alguma coisa à minha irmã. Não lembro o que
era, gosto de ficar perguntando coisas a ela (algumas meio esquisitas
talvez). Deve ser porque tem dezessete anos, é a mais velha dos três e
já leu muitas histórias na vida. Quando olhei, não tinha mais ninguém
lá.
.
Levantei,
fui até a janela e dei uma espiada no quintal (ela gosta de tomar
chuva). Vi a goiabeira, o pé de jabuticaba, vi a horta lá no fundo, mas
nada de irmã.
Perguntei ao meu irmão se a tinha visto. Não.
Fui
aonde estava a minha avó, que também já leu muitas, muitas histórias!
Um dia lhe perguntei se já tinha lido todos aqueles livros. Ela
respondeu: acho que não. Acha? Não tem certeza? Nunca pensei nisso, ela
respondeu.
“Vó, você viu minha irmã?”
Ela parou com a costura, levantou um pouco os óculos e ficou me olhando.
“Estava ali agora!”, eu disse, apontando a estante.
Minha avó olhou na direção que eu apontava.
“Pra onde ela foi? Você viu?”
Ela não respondeu na hora.
Quando já ia perguntar de novo, ela falou:
“Vi.”
Olhei para o meu irmão, que agora estava perto de mim.
Como se não estivesse nem aí, minha avó voltou a tricotar. Depois disse, com a maior calma desse mundo:
“Sua irmã entrou num livro.”
“Entrou? Como assim?”
“Entrou entrando. Acontece.”
.
Meu
irmão colocou as mãos no meu ombro, por trás de mim. Gostava quando ele
fazia isso. Não falava muito mas eu sabia que estava sempre por perto,
e as mãos no ombro queriam dizer: não tenha medo.
Ele
me pegou pela mão e me levou até onde eu tinha visto minha irmã pela
última vez. Depois passou os dedos pelas lombadas dos livros, como se
estivesse procurando algum em especial.
Finalmente
escolheu um e tirou da estante. Abriu, leu o início. Depois fechou o
livro e colocou de novo no lugar, dando uma batidinha de leve na
lombada, como se dissesse: achei, é você.
Então se agachou, olhou bem dentro dos meus olhos e disse:
“Temos que ir.”
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