Flávio Carneiro
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A MAIS BELA HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS

Curitiba
Maralto, 2022. 108 p.
A MAIS BELA HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS


 

Meu irmão não é de falar muito. Naquele dia, ele bem que poderia ter me contado a verdade sobre nossa irmã.

Era uma tarde chuvosa, chuva fininha, caindo devagar. Estávamos na sala da casa da minha avó. Não é uma casa muito grande, mas tem uma sala cercada de livros por todas as paredes. Todas menos uma, com a janela enorme, de vidro, dando para o pomar. Meu irmão estava de frente para essa janela, olhando a chuva.

Deitado no tapete, no centro da sala, eu lia a história de Robinson Crusoé. Depois parei um pouco, levantei a cabeça e fiquei vendo as gotas escorrendo pelo vidro da janela. Fileirinhas de formiga, pensei comigo.

Num outro canto, na entrada da sala, nossa irmã procurava algum livro numa das estantes. Perto dela, minha avó, sentada na sua poltrona, tecia uma colcha de tricô, interminável.

Voltei a ler. Eu me sentia muito bem ali. A chuva na vidraça, o silêncio, o tapete macio, meus irmãos e minha avó por perto enquanto eu viajava para uma ilha com Robinson Crusoé. O que mais poderia querer?

Então me virei para perguntar alguma coisa à minha irmã. Não lembro o que era, gosto de ficar perguntando coisas a ela (algumas meio esquisitas talvez). Deve ser porque tem dezessete anos, é a mais velha dos três e já leu muitas histórias na vida. Quando olhei, não tinha mais ninguém lá.

.

Levantei, fui até a janela e dei uma espiada no quintal (ela gosta de tomar chuva). Vi a goiabeira, o pé de jabuticaba, vi a horta lá no fundo, mas nada de irmã.

Perguntei ao meu irmão se a tinha visto. Não.

Fui aonde estava a minha avó, que também já leu muitas, muitas histórias! Um dia lhe perguntei se já tinha lido todos aqueles livros. Ela respondeu: acho que não. Acha? Não tem certeza? Nunca pensei nisso, ela respondeu.

“Vó, você viu minha irmã?”

Ela parou com a costura, levantou um pouco os óculos e ficou me olhando.

“Estava ali agora!”, eu disse, apontando a estante.

Minha avó olhou na direção que eu apontava.

“Pra onde ela foi? Você viu?”

Ela não respondeu na hora.

Quando já ia perguntar de novo, ela falou:

“Vi.”

Olhei para o meu irmão, que agora estava perto de mim.

Como se não estivesse nem aí, minha avó voltou a tricotar. Depois disse, com a maior calma desse mundo:

“Sua irmã entrou num livro.”

“Entrou? Como assim?”

“Entrou entrando. Acontece.”

.

Meu irmão colocou as mãos no meu ombro, por trás de mim. Gostava quando ele fazia isso. Não falava muito mas eu sabia que estava sempre por perto, e as mãos no ombro queriam dizer: não tenha medo.

Ele me pegou pela mão e me levou até onde eu tinha visto minha irmã pela última vez. Depois passou os dedos pelas lombadas dos livros, como se estivesse procurando algum em especial.

Finalmente escolheu um e tirou da estante. Abriu, leu o início. Depois fechou o livro e colocou de novo no lugar, dando uma batidinha de leve na lombada, como se dissesse: achei, é você.

Então se agachou, olhou bem dentro dos meus olhos e disse:

“Temos que ir.”





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