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Eu,
uma vez, ouça com atenção, não se desconcentre, esqueça Emma e o metrô
por um instante, depois voltamos a falar disso, é muito importante o
que vou lhe dizer – é o começo de tudo –, eu uma vez andava pelas ruas
da Gávea, depois de ter roubado alguns livros da biblioteca da PUC, e
parei em frente a um restaurante que a senhora conhece, já esteve lá.
Era um restaurante caro, eu conhecia bem os restaurantes caros, não por
ter entrado em algum, só de olhar, tinha uma das paredes envidraçada,
de modo que eu podia ver quem estava lá dentro naquela tarde quente,
era verão mas lá dentro havia homens de terno, lá dentro não fazia
calor, o ar-condicionado não deixava, e fiquei ali um tempo, olhando
pela vidraça. Vi uma mulher sozinha numa mesa. Uma mulher elegante,
bem-vestida, uns trinta anos, avaliei, quem sabe casada com algum
milionário, talvez ela mesma fosse de uma família rica, tradicional, e
aproveitasse uma folga depois das compras para beber seu vinho em paz,
longe do marido e das crianças, antes de voltar para casa e dar ordens
às empregadas, os preparativos para o jantar, criei a biografia daquela
mulher, eu em pé, do lado de fora, olhando.
Aquela
mulher era a senhora, claro, quem mais poderia ser? Era a senhora que
estava sentada ali, naquela tarde quente, ou fria, dependendo de onde
se estava, era a senhora que levava a taça aos lábios num gesto suave e
firme, de quem já fizera aquilo várias vezes na vida, e a taça voltando
depois para o lugar inicial, quieta, íntima da mão que acabara de
tocá-la, num entendimento perfeito entre pele e cristal, como se
tivessem surgido no mundo apenas para um dia se encostarem uma no
outro, naquela tarde, no restaurante. O que será que ela está pensando
agora?, me perguntei, no momento em que a senhora virou o rosto na
minha direção e me viu. Nós nos olhamos por segundos, segundos apenas,
e a senhora certamente não reparou no meu olhar de súplica, certamente
nem me notou, olhou simplesmente, como se olha para uma rachadura na
parede, um gato na calçada, uma bicicleta atravessando a rua, e depois
esquece que viu a rachadura, o gato, a bicicleta, voltando a fazer o
que fazia antes, sem lembrar, sem nenhum registro do que viu.
Mas
eu não a olhava assim, eu a olhava suplicando, eu queria saber o que a
senhora estava pensando naquele momento, ou mais ainda, o que estava
sentindo depois de ter depositado a taça sobre a mesa, de ter bebido o
vinho, eu queria muito uma coisa, a senhora já quis muito, mesmo, uma
coisa? Então vai me compreender, eu queria muito uma coisa, e logo que
a senhora desviou de mim o seu olhar e voltou a segurar a taça, e a
levou outra vez aos lábios, bebendo um mínimo gole do vinho, sem
pressa, lentamente, como se o tempo não fosse precioso, como se nem
existisse o tempo, nesse instante falei baixinho, ninguém ouviu, não
havia ninguém perto de mim, olhei bem na sua direção e disse: me
ensina, por favor.
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