Flávio Carneiro
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A CONFISSÃO

Goiânia
Martelo, 2023. 304 p.
(1º edição - Rio de Janeiro: Rocco, 2006)
A CONFISSÃO


 

 Eu, uma vez, ouça com atenção, não se desconcentre, esqueça Emma e o metrô por um instante, depois voltamos a falar disso, é muito importante o que vou lhe dizer – é o começo de tudo –, eu uma vez andava pelas ruas da Gávea, depois de ter roubado alguns livros da biblioteca da PUC, e parei em frente a um restaurante que a senhora conhece, já esteve lá. Era um restaurante caro, eu conhecia bem os restaurantes caros, não por ter entrado em algum, só de olhar, tinha uma das paredes envidraçada, de modo que eu podia ver quem estava lá dentro naquela tarde quente, era verão mas lá dentro havia homens de terno, lá dentro não fazia calor, o ar-condicionado não deixava, e fiquei ali um tempo, olhando pela vidraça. Vi uma mulher sozinha numa mesa. Uma mulher elegante, bem-vestida, uns trinta anos, avaliei, quem sabe casada com algum milionário, talvez ela mesma fosse de uma família rica, tradicional, e aproveitasse uma folga depois das compras para beber seu vinho em paz, longe do marido e das crianças, antes de voltar para casa e dar ordens às empregadas, os preparativos para o jantar, criei a biografia daquela mulher, eu em pé, do lado de fora, olhando.

Aquela mulher era a senhora, claro, quem mais poderia ser? Era a senhora que estava sentada ali, naquela tarde quente, ou fria, dependendo de onde se estava, era a senhora que levava a taça aos lábios num gesto suave e firme, de quem já fizera aquilo várias vezes na vida, e a taça voltando depois para o lugar inicial, quieta, íntima da mão que acabara de tocá-la, num entendimento perfeito entre pele e cristal, como se tivessem surgido no mundo apenas para um dia se encostarem uma no outro, naquela tarde, no restaurante. O que será que ela está pensando agora?, me perguntei, no momento em que a senhora virou o rosto na minha direção e me viu. Nós nos olhamos por segundos, segundos apenas, e a senhora certamente não reparou no meu olhar de súplica, certamente nem me notou, olhou simplesmente, como se olha para uma rachadura na parede, um gato na calçada, uma bicicleta atravessando a rua, e depois esquece que viu a rachadura, o gato, a bicicleta, voltando a fazer o que fazia antes, sem lembrar, sem nenhum registro do que viu.

Mas eu não a olhava assim, eu a olhava suplicando, eu queria saber o que a senhora estava pensando naquele momento, ou mais ainda, o que estava sentindo depois de ter depositado a taça sobre a mesa, de ter bebido o vinho, eu queria muito uma coisa, a senhora já quis muito, mesmo, uma coisa? Então vai me compreender, eu queria muito uma coisa, e logo que a senhora desviou de mim o seu olhar e voltou a segurar a taça, e a levou outra vez aos lábios, bebendo um mínimo gole do vinho, sem pressa, lentamente, como se o tempo não fosse precioso, como se nem existisse o tempo, nesse instante falei baixinho, ninguém ouviu, não havia ninguém perto de mim, olhei bem na sua direção e disse: me ensina, por favor.






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