Flávio Carneiro
Trecho
Obra
ReleaseTrecho
PAISAGEM COM SEGREDO

São Paulo
Maralto, 2022. 80 p.
PAISAGEM COM SEGREDO


APRENDIZAGEM

Flávio Carneiro

 

A mãe passa roupa, de olho no relógio. Sentada no chão, encostada na parede, a menina só observa, criando coragem para perguntar o que precisa ser perguntado, urgentemente.

“Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer?”

“Hã?”

“Se eu cortar meu cabelo hoje, quando que ele vai crescer de novo?”

“Cabelo está sempre crescendo, Beatriz, é que nem unha.”

Não era exatamente a resposta que ela esperava. A comparação a deixa meio confusa, não estava preocupada com unha.

“Todo dia, mãe?”

“É, só que a gente não repara.”   

“Por quê?”

“Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha não?”

Beatriz fica em dúvida. Não sabe se essa é uma pergunta do tipo que é preciso responder ou daquelas que a gente só ouve e pronto. Prefere não responder.

“Você é muito ocupada, não é, mãe?”

“Hã?”

“Nada não.”

A mulher termina de passar a roupa e guarda tudo no armário.

Enquanto isso Beatriz vai discretamente até o quartinho de costura, pega a fita métrica e depois corre para o quarto que divide com a mãe, para medir novamente o cabelo da boneca. Ela mesma tinha cortado aquele cabelo, tão longo, tão fininho. Cortou com todo o cuidado do mundo, olhando sempre para uma foto da mãe, servindo de modelo.

Era para ficar parecido, mas a verdade é que o corte saiu um pouquinho torto. Mais do que um pouquinho, talvez. Nada bom, Beatriz pensou, quando viu o resultado da experiência. Não mesmo, repetiu.
Poxa, não cresceu nada, conclui agora, guardando a fita. E já tem uma semana!

Ela então acomoda a boneca debaixo da cama, onde ninguém possa ver. Antes, embrulha a filha num pano macio, dá um beijo em sua testa e a coloca delicadamente lá no fundo, perto da parede.

Depois vai até onde está a mãe, que agora lustra os móveis, apressada.

“Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer?”

“De novo essa conversa de cabelo! Não tem outro assunto não, criatura?”

Essa não tem dúvida, Beatriz pensa. É do tipo que você não deve responder.

A mãe continua trabalhando, preocupada com a hora. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda.

“Mãe!”

“Que foi?”

“É que eu estava aqui pensando.”

“Pensando o quê?”

Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas.

“Vai, fala logo.”

“Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais pra desfazer, entendeu?”

“Não, não entendi.”

Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar:

“Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo?”

“Ai, meu Deus!”

Beatriz deixa a mãe na sala e vai procurar de novo sua boneca.

Pega a boneca no colo e diz:

“Liga não, filha. Vai crescer.”

Depois fala no seu ouvido, bem baixinho:

“Posso te contar um segredo? Mas você não pode contar pra ninguém, promete?”

Silêncio.

“Ouve só: cabelo de boneca demora a crescer. Não é igual cabelo de gente, que cresce todo dia. Unha também cresce todo dia. Todo santo dia. Cabelo de boneca não, demora mais.”

E depois, num carinho, olhando bem nos olhos da filha, quieta no seu colo:

“Pode acreditar, viu? Foi minha mãe que me ensinou.”







Outras Publicações









Voltar