Flávio Carneiro
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O livro de Marco

São Paulo
Global, 2003. 62 p.

Primeira viagem: na floresta de Alba


O livro de Marco
Não parecia muito difícil seguir sua trilha, como meu pai tinha ensinado, porque era noite limpa, apenas com uma ou outra nuvem, e dava para distinguir bem as estrelas. Além disso, uma lua enorme iluminava árvores, rios, pedras, clareava meu caminho. Nem sempre é tão fácil, meu pai dizia, há viagens piores. Nem sempre é tão fácil mas naquele noite era, tanto que daria até para desconfiar, se eu não fosse ainda tão novato nas artes de seguir estrelas cadentes.
Antes de chegar à floresta, porém, tive alguns problemas. Não contava, logo na primeira viagem, ter que atravessar sem descanso a longa planície que só conhecia de ouvir falar, simplesmente porque a danada da estrela, por puro capricho, fizera uma curva inesperada. Para não perdê-la de vista, escalei penhascos, passei a noite entre os selvagens do deserto, pedi ajuda ao mago das quatro cavernas, deixei minhas pegadas em praias sem fim, me deparando com o frio, a fome, o erro, tendo que evitar o veneno de ervas, serpentes, feiticeiros. Tudo na minha primeira viagem, eu, Marco, tão menino, acompanhando na noite infinita a trilha da minha estrela.
Só quando percebi que ela cairia na floresta de Alba pude ficar tranqüilo. Estava fora de perigo naquele véu de névoas que se abrem ao viajante, deixando que os olhos cansados vislumbrem as copas das árvores mais altas, ou o sol entrando por uma fresta e iluminando a ponta de uma rocha. Quem chega à floresta, dizem que até hoje é assim, pensa estar sonhando, sobretudo se um pássaro sai furando nuvens, zunindo em direção ao céu azul que faz fundo para o desenho de Alba.
Atravessado o nevoeiro, dava vontade mesmo era de não fazer nada. Vontade de deixar o corpo se encostar num canto macio e ficar ali, o corpo encostado, fazendo preguiça, tudo muito quieto. Um dos mistérios de Alba era o silêncio, só se ouvia às vezes, muito longe, o barulho de uma queda d'água ou o vento balançando as folhas das árvores, ou ainda, nos dias quentes, o canto de acasalamento das lífides. Com exceção delas, nada naquele lugar parecia falar ou se mover.
Meu pai havia me contado sobre as lífides. Estão sempre em bando, ele dizia, umas dez ou vinte, com aquele corpo redondo, uma pequena circunferência de uns cinco centímetros de diâmetro, cabendo inteira na palma da mão. Uma lífide é pura transparência - através de seu corpo eu podia ver as cores de um capim ou de um pássaro -, e só é possível enxergá-la porque traz oito asinhas, em duas fileiras de quatro, brancas, rápidas com as de um beija-flor, e que à primeira vista parecem estar voando descoladas de qualquer corpo.
Ver lífides dá sorte, meu pai costumava dizer. Além disso, são guias excelentes. Por se alimentarem apenas do ar de Alba, elas conhecem cada vereda aberta pelo vento e indicam para o viajante sempre o caminho mais leve.
No fundo eu torcia para ele estar certo porque um bando delas me guiava sei lá para onde. Fui me deixando levar, flutuando mais que andando, ouvindo aquele bater de asas e sentindo o ar cada vez mais puro com que elas me rodeavam. De olhos fechados, entregue completamente a elas, sonhava com minha casa, minhas coisas, o cobertor quentinho, me lembrava das dificuldades da viagem, e sobretudo ficava imaginando o que iria sentir quando encontrasse a estrela que procurava. Tentava imaginar como seria ela vista aqui embaixo, na terra.
De olhos fechados ia pensando essas coisas quando de repente senti o silêncio. Elas pararam de voar, pensei. Abri os olhos e percebi as lífides me abandonando, me trocando por um filhote de coelho que agora corria pela floresta rodeado pelo cordão de bolinhas agitadas.
Continuei caminhando, agora atento, os olhos vasculhando cada canto, ouvido alerta a qualquer ruído. Mal tinha andado alguns minutos quando a encontrei.
Ao cair, meu pai dizia, uma estrela vira menina, que é um jeito de ser de novo estrela. E era mesmo uma menina que eu via ali, estrela virada em menina, menina de novo estrela ou quem sabe sempre menina, desde antes, ou talvez uma outra coisa qualquer entre menina e estrela porque o corpo era de uma e o brilho só podia ser da outra. Não sei, só sei que naquela hora era uma menina, brilhando feito estrela, e dormindo.
O rosto meio de lado, o cabelo louro, fino, comprido, tapando metade do rosto, a cabeça encostada numa pedra coberta de musgo, ela dormia. Era bem branquinha, e também era branco o vestido que usava, deixando ver as pernas, os braços, o vestido parecendo nuvem que ela trouxe de onde morava. Vendo a menina assim deitada, o rosto de puro ar emoldurado, as linhas delicadas do queixo e da boca, pensei um nome para dar a ela e sem perceber acabei dizendo baixinho, para não acordá-la: Maria.
Então desconfiei. E se meu pai estivesse certo? Ele contava que às vezes, ao cair, a estrela dorme um ano-luz, de tão cansada de brilhar sem parar. "E você pode esperar se quiser, Marco", ele dizia, "porque vale o sacrifício da espera para ver uma menina acordando." Fiquei pensando se valia mesmo a pena aguardar todo um ano-luz ou se seria melhor despertá-la logo de uma vez - esperar nunca foi o meu forte, meu pai sempre falava.
O que ele nunca me contou foi o jeito de acordar menina estrela, e eu precisava inventar algum. Talvez se eu cantasse a música da minha cidade, para que ela no meio do sono percebesse de onde eu tinha vindo e acordasse curiosa, querendo saber mais sobre esse lugar, o que as pessoas fazem lá, se tem mar, se tem montanha, planalto, como as pessoas se cumprimentam quando se encontram na rua, ou o que fazem às duas horas da tarde, qual a cor da chuva no verão, quem alimenta as plantas. Ou quem sabe se eu acariciasse de leve seu pé descalço, para que ela sentisse um calorzinho bom e abrisse os olhos para saber se era um passarinho preguiçoso coçando as costas ou um gato lustrando o pêlo para sair bonito à noite. Antes que pensasse mais bobagens, ela acordou.
Acordou devagarinho, aliás muito devagarinho, dona do tempo, abrindo os olhos como quem não tem a mínima pressa de nada. Maria dengosa, pensei comigo mesmo, mas a única coisa que consegui dizer foi: "bem-vinda".
Também, se eu tivesse dito "seu vestido está pegando fogo" daria no mesmo porque tenho quase certeza de que ela nem ouviu o que falei. Virou-se na minha direção, se espreguiçou durante umas três horas e meia e depois sorriu. Ah, aquele sorriso. Meu pai comentava às vezes: sorriso de menina quando acorda é um perigo! Deve ser porque a luz que elas tiveram no céu fica toda concentrada na boca quando elas caem na terra, pensei, e ao sorrirem a luz se espalha e ilumina o mundo, e no mundo os meninos.
Acontece que eu tinha pensado errado porque descobri logo depois que a luz estava também nos olhos claros, quando ela ficou me olhando, e nos braços e pernas, quando fiquei olhando ela, e nos cabelos finos lourinhos, na pele, no corpo inteiro, luz que existia só para ficar sobrando. Era um desperdício aquilo, e vê-la só me deu a certeza de que tinha compensado correr todos os riscos que tinha corrido, todos os perigos de viajar pela terra e pelo céu, e vê-la me deixou a certeza também de não ter certeza nenhuma, a não ser a de que estava tonto.
Ficamos calados durante séculos, eu com medo de dizer uma palavra errada, uma palavra que estragasse tudo, ela não sei por qual motivo. Não fazia parte do meu temperamento ficar calado, a não ser quando estava viajando, sempre sozinho, mas mesmo nessas horas puxava assunto com uma pedra, um rio, uma coruja, perguntando coisas e criando respostas com uma voz diferente e depois acreditando. Naquele momento, então, era evidente que eu tinha um monte de coisas para perguntar, como, por exemplo, o que as estrelas ficam fazendo no céu quando não estão caindo.
Cheguei a abrir a boca, ensaiando uma fala. Quando percebeu minha intenção, Maria fabricou de novo aquele sorriso, quer dizer, não aquele mas outro, parecido, como se ela quisesse dizer que eu não precisava dizer nada porque ela já havia entendido. Certo, Maria tinha entendido, mas e eu? Minha primeira estrela, ali, resplandescente, o cabelo sendo as formas que o vento dava, tão linda, tão próxima, tão distante, eu completamente iluminado e sem luz nenhuma?
Ela sorriu de novo, acho que tentando me acalmar. Maria falava assim, sorrindo. Para cada coisa que ela queria dizer os lábios e os olhos se moviam, se combinavam num movimento harmônico, fala silenciosa que significava mil e quinhentas coisas diferentes mas eu só entendia umas vinte ou trinta, mais ou menos.
Foi então que aconteceu. Perdi um pouco da paciência que nunca tive e me movi, andei um passo na direção dela, as mãos prometendo um gesto, um abraço, querendo tocá-la para ver se com um toque eu aprendia um pouco da sua pele, dos seus cabelos, já que da voz, pensei, podia mesmo desistir.
Meu pai, se estivesse comigo, teria dito para eu ter calma. Ou então quem sabe se repetisse a conversa que tivemos certa vez, numa noite escura: "Marco, viajante precisa saber partir, mas também saber voltar". Eu perguntei: "pai, e se for para ficar, ficar onde der vontade, não voltar, não partir outra vez, como a gente sabe?" Ele olhou para o céu, talvez pensando em minha mãe, e não respondeu.
Eu tinha partido de casa e naquela hora não sabia se devia seguir viagem, buscar outro caminho, outra estrela, ou se tudo aquilo estava acontecendo só para eu entender que tinha chegado, apenas tinha chegado, fim. Mas pelo menos sabia duas verdades. A primeira era que o certo seria esperar, não me precipitar, esperar mais um pouco. A segunda verdade era que não iria esperar, porque o céu, a terra, o mundo, essas coisas.
Caminhei na direção de Maria, que continuava me olhando, silenciosa. Quando já estava bem perto ela virou de lado e de novo dormiu.
Senti que não havia mais qualquer chance de tocá-la, de ouvi-la, e mesmo de rever seus olhos claros. Fiquei ali, parado, olhando seu sono. O rosto sereno, os lábios fechados guardando ainda a sombra de um sorriso, dormiu, para mim para sempre, minha branquinha, primeira estrela cadente.


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