Flávio Carneiro
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O Campeonato

Rio de Janeiro
Objetiva, 2002. 358 p.

Quando o diretor mandou me chamar, eu já sabia qual era o assunto.
Pode entrar, ele disse, eu com meio corpo dentro da sala, a
O Campeonato
porta entreaberta. Entrei de vez e fiquei esperando, em pé. Ele apontou a cadeira com um movimento quase imperceptível da cabeça, sem tirar os olhos do papel, no qual escrevia alguma coisa. Esperei. Ficar sentado sem fazer nada, mesmo por pouco tempo, me dava aflição, sobretudo porque eu sabia que dentro da minha bolsa inseparável tinha um livro, justamente o livro que eu estava lendo sossegado no meu canto antes de a secretária me avisar que o diretor queria falar comigo. Odeio que interrompam minha leitura, mas, afinal, era o Dr. Camargo me chamando, tive que ir.
Eu estava ali, mas minha cabeça estava no romance que eu tinha parado de ler, um romance policial. Enfiei a mão na bolsa e fiquei segurando o pequeno volume. Olhei para o relógio na parede: quatro minutos, eu já estava sentado naquela cadeira por longos quatro minutos.
Isso é uma tortura, pensei, ele quer me torturar. Quando comecei a trabalhar na Biblioteca, a primeira coisa que o diretor me disse, antes mesmo de dizer bom-dia, aliás ele nem me deu bom-dia, foi: não é permitido ler durante o expediente. Claro, Dr. Camargo, eu falei, mas fiquei chateado pra caramba, trabalhar numa biblioteca e não poder ler? Sacanagem.
Pensei nas conseqüências de tirar o livro da bolsa e ler ali mesmo, na frente do diretor, afinal eu tinha certeza de que já estava demitido. Ele pode me espinafrar, pensei, mas isso ele vai fazer de qualquer jeito, ou mandar descontar do meu último salário, ou ligar pro meu irmão, coitado, que tinha me arranjado aquele emprego, era amigo do Dr. Camargo, e dizer: grande débil mental você foi me arrumar. A última coisa que eu queria na vida era incomodar meu irmão.
Arrastei um pouco a cadeira, fazendo barulho pra chamar a atenção, o Dr. Camargo era um cara insuportável. Gostava de ser chamado assim, com o doutor antes do nome, tinha conseguido terminar a faculdade aos trancos e barrancos, nunca mais estudou na vida, foi se ajeitando, puxando saco dos outros, fazendo política, e agora era doutor. Grande merda. Conferi no relógio: cinco minutos.
Ele percebeu minha intenção e não gostou de eu ter feito barulho, ergueu os olhos ligeiramente, sem mover a cabeça, olhando por sobre os óculos pequenos, desses com correntinha presa ao pescoço. Continuou escrevendo. Eu tinha deixado a bolsa no meu colo e sem que me desse conta minhas mãos já tinham ajeitado o livro numa posição que me permitia ler sem precisar tirá-lo da bolsa, bastava deixá-lo onde estava, aberto na página interrompida, e baixar um pouco os olhos, mirando na direção dos meus joelhos.
Se o diretor demorasse mais trinta segundos eu já sabia o que iria acontecer. Estava perdendo o controle da situação, sentia que a qualquer momento o livro saltaria da bolsa como se fosse um peixe, precisava fazer alguma coisa, então mandei:
"Doutor Camargo, eu sei que o senhor..."
"Sabe o quê?", ele falou, me interrompendo com violência e me olhando de frente. Tirou os óculos do rosto num gesto brusco.
"Nada."
"Senhor André", era a primeira vez que ele me chamava de senhor, minhas pernas tremeram, "me diga uma coisa: o senhor tem diploma de bibliotecário?"
Cheguei a ensaiar uma resposta, mas ele mesmo respondeu:
"Não, não tem. Tem alguma experiência, já fez estágio ou qualquer coisa assim? Não, nenhuma experiência. O senhor pelo menos já tinha entrado numa biblioteca pública antes? Nunca. Mas então como foi que o senhor veio parar aqui? Como, senhor André? Não sabe, então vou lhe responder: sorte, pura sorte. O senhor teve a sorte de ter um irmão que é amigo do diretor de uma biblioteca como esta, que pode lhe oferecer um bom salário, mesmo o senhor sendo quem é, ou seja, ninguém!"
Foi difícil, mas consegui ler quase um parágrafo inteiro enquanto o Dr. Camargo me dava aquele esporro. Eu mantinha os olhos baixos, como se estivesse envergonhado do que fizera. Minhas mãos estavam dentro da bolsa e eu não olhava para os meus pés, como o Dr. Camargo talvez pensasse, mas para a página aberta no ponto em que a leitura do romance fora interrompida. Se ele continuasse falando por mais um tempo, quem sabe eu conseguisse chegar ao final da página.
"O que foi que eu lhe disse quando o senhor chegou aqui?"
Fiquei calado, esperando, e lendo. Felizmente ele fez uma pausa enorme, devia estar saboreando minha humilhação, o safado, uma pausa suficiente pra que eu terminasse o parágrafo. Levantei os olhos levemente, pra me certificar: seria possível virar a página? Dei azar porque, quando viu meus olhos, o Dr. Camargo parece que ganhou mais energia e aumentou o tom de voz de tal maneira que me assustei e não tive como virar página nenhuma. Mas deixei o livro aberto.
Ele já não falava, rosnava pra cima de mim:
"O senhor sabe. Pois bem, esta é a terceira vez, repare, não é a primeira nem a segunda, é a terceira vez que pego o senhor lendo durante o expediente. Estou errado?"
Permaneci em silêncio, tinha decidido não dizer mais uma palavra sequer.
"Chego no balcão e o que é que eu vejo? Um usuário esperando pra ser atendido, os outros funcionários ocupados, e o senhor simplesmente lendo."
Definitivamente, trabalhar num biblioteca não tinha sido uma boa idéia.
O diretor parou um pouco pra respirar, o rosto vermelho, afogueado, as veias do pescoço latejando. Mais calmo, disse, numa voz de quase indiferença:
"O senhor está despedido."
Fechei a bolsa e fui me levantando, sem dizer nada. Virei as costas, caminhei na direção da porta.
"Pode passar no DP e acertar suas contas", ele falou quando eu já estava com a mão na maçaneta, mas fingi que não tinha ouvido. Ainda me restavam algumas migalhas de dignidade.
No Departamento de Pessoal uma velhota me entregou um cheque.
"Que sorte, hem", ela disse, consultando o relógio, "três e meia, ainda dá tempo de descontar hoje."
Era a segunda pessoa naquele dia que me falava que eu tinha sorte. Não gostei. Desci as escadas, correndo. Peguei o ônibus, saltei em frente ao banco, entrei, descontei o cheque. Fazia um calor terrível e eu só pensava numa coisa: cerveja. Parei no primeiro bar, um boteco vagabundo no centro da cidade, duas mesas na parte de dentro, três na calçada, gente passando, ônibus, fumaça, barulho, eu não queria nem saber. Só tinha uma mesa vaga, como se bebe nesta cidade, meu Deus, quatro horas da tarde e aquele pé-sujo só tinha uma mesa vaga.
Sentei, pedi uma gelada, tirei o livro da bolsa. Aquele não era o melhor lugar pra se ler um livro, mas eu não escolhia lugar. Ajeitei o corpo na cadeira, enchi o copo, tomei um gole generoso e, antes de abrir meu romance, ainda falei bem alto, quase gritando: foda-se o Dr. Camargo!
Ninguém entendeu nada.

*

"Sabe qual é o nome disso, você sabe qual é o nome disso?", Raquel estava furiosa, quando ficava repetindo as coisas assim é porque estava furiosa, eu já sabia.
"Obsessão, conhece essa palavra: obsessão? Você é um obsessivo, André."
Deixei que ela falasse, as mulheres precisam falar muito, é como respirar, faz mal pra elas quando não falam, é uma coisa orgânica, eu acho. Antes de continuar, Raquel foi até a mesinha de cabeceira, pegou o maço de cigarros, acendeu um, deu apenas um trago e apagou o cigarro no cinzeiro com raiva, num gesto exatamente igual ao da moça do filme que a gente tinha visto na noite anterior. Achei graça.
"Está rindo de quê? Você está rindo de quê, André?"
Raquel tinha entendido, percebi que eu não devia ter achado graça, fiquei sério de novo.
"Você sabia, André, que tem gente que trabalha a vida inteira sem nunca ser demitido, você sabia disso? Você tem vinte e seis anos, André, está trabalhando só há dois anos e esta é a terceira vez que te mandam embora! Tudo bem, na Biblioteca pelo menos você demorou um pouco mais, já é um progresso, mas é normal alguém ser mandado embora de três empregos em dois anos, me responde, é normal?"
Eu não precisava responder.
"Não, não é normal. Se você bebesse em serviço, tudo bem, seria um motivo, foi demitido porque bebe demais, tudo bem, a gente procurava o Alcoólicos Anônimos, você fazia um tratamento. Mas não, não é esse o problema. Drogas? Não. Insônia, alguém que não te conhece poderia dizer: tem insônia durante a noite e dorme no trabalho. Também não. É briguento, mulherengo, desonesto? Nada disso. Então o que é?, perguntaria uma pessoa normal. O problema, meu senhor..."
Adorava quando Raquel fingia que estava falando com alguém e imitava a pessoa respondendo, mudava a voz, a fisionomia, eu me divertia muito, até esquecia que estava levando uma dura.
"O problema é que este cidadão lê durante o expediente. Isso, apenas isso, é um leitor compulsivo."
Ela começou a chorar. Raquel era minha namorada, pretendíamos nos casar assim que eu me firmasse em algum emprego, mas estava difícil. Tudo por causa dos livros.
"Você, André, você..."
Ela falava e chorava ao mesmo tempo, era muito triste.
"Não tenho culpa se gosto de ler", arrisquei.
Ela emendou de primeira:
"Você não gosta de ler. Quem gosta de ler, lê em casa, ou na praia, ou no metrô, ou na..." Ela ia dizendo biblioteca. "Quem gosta de ler não deixa de trabalhar por causa disso, o seu problema, André, o seu problema é que você é um viciado, entendeu, você é um doente!"
Aquilo doeu. Raquel percebeu que tinha ido um pouco longe demais, chegou perto de mim, sentou-se do meu lado, enxugou as lágrimas, me fez um carinho no rosto.
"Amanhã, meu amor", ela me disse, "amanhã, nem adianta reclamar que eu já marquei, amanhã vamos ao doutor Epifânio de Morais Netto."
Mais um doutor na minha vida, pensei, mas não disse.
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