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Dizem que Xie Kitchin nasceu em Lalande. Foi lá que ela aprendeu, entre outras coisas, que mulher não chora.
Em Lalande não existe espelho, na verdade os habitantes de Lalande nem imaginam o que seja um espelho. Mas todo mundo sabe muito bem o que é um Criticante, porque em toda casa há pelo menos um deles, algumas têm até dois ou três (que sempre brigam entre si). Ser Criticante é meio cansativo, embora seja uma profissão de muito prestígio. De dia e de noite, sempre que alguém deseja saber se está bonito, feio ou mais ou menos, é preciso chamar o Criticante:
- Este chapéu combina com esta bolsa?
- O azul fica melhor, madame.
- E o penteado?
- Perfeito.
- A blusa, que tal?
- Um pouco larga.
E a madame fica sabendo que deve usar o chapéu azul e apertar a blusa.
Agora, se você me perguntar como é que um Criticante faz para saber se ele mesmo está bonito ou feio, eu lhe respondo: não faz. Segundo o Manual das Profissões de Lalande, um Criticante jamais deve se preocupar com essas coisas.
Como eu ia dizendo, em Lalande mulher não chora. Xie Kitchin não sabia disso quando chorou pela primeira vez. Era seu aniversário de cinco anos. Conforme a tradição, toda vez que nasce uma menina, a mãe começa a costurar para a recém-nascida um vestido, que só deve ser terminado quando a criança completar cinco anos de idade. Dá muito trabalho esse vestido, porque é todo tecido com lágrimas de anjo.
A família inteira acompanhou cada detalhe da confecção do vestido de Xie: a colheita das lágrimas, a escolha das linhas, das rendas, dos aviamentos, o desenho do molde, a primeira e a última volta da agulha etnre os dedos da senhora Kitchin.
Chegado o dia, todos, inclusive amigos, outros parentes e vizinhos, se reuniram na sala, em círculo, vestidos com suas melhores roupas, e esperaram. Alguns minutos depois, Xie e sua mãe, de mãos dadas, entravam na sala. Xie Kitchin ria muito, achava graça de tudo, inclusive de tanta gente de cara séria, esperando por ela.
A mãe deixou-a sozinha no centro da sala e foi para o seu lugar, ao lado do marido. Ninguém conversava, nem ria nem nada, era puro silêncio, até que Xie Kitchin, segurando a barra do seu vestido, disse, num suspiro profundo:
- Tão bonito...
Houve um constrangimento geral. Todos se entreolharam, meio sem jeito, principalmente os familiares da menina. A mãe se sentiu na obrigação de dar a bronca:
- Xie, já disse pra você não falar essas coisas! Seu irmão não ensinou que é preciso esperar o Criticante?
Ilustríssimos Noeros da Silva era o Criticante daquela família. Estava com eles havia trinta anos, era bem velho, surdo e rabugento, além de não enxergar quase nada. Foi entrando com dificuldade, apoiado na bengala, e todos se curvaram em sinal de respeito. Caminhou na direção do centro da sala, resmungando umas coisas sem sentido, que ninguém entendia direito mas que pareciam algo assim:
- As formas puras... preto, branco, cinza não... harmonia... isso combina... aquilo não...
Xie ignorava tudo, nem tinha percebido a entrada do velho, toda maravilhada e rodando com seu vestido justinho no corpo. No entanto, avô, tio, tia, pai, mãe, irmão mais novo e até a borboleta de estimação de Xie Kitchin estavam sérios, preocupados, esperando em silêncio que o Criticante chegasse mais perto e dissesse afinal se a menina estava ou não bonita.
- Quem é você? - perguntou ele a Kitchin.
Como a filha continuasse distraída, a mãe foi até ela, endireitou-a, bem de frente para Noeros, e respondeu em seu lugar:
- É minha filha, senhor Ilustríssimo Noeros da Silva, minha caçula.
- Hum... o cabelo está bom, muito bom mesmo, magnífico.
Todos abriram um sorriso desse tamanho! A borboleta abriu as asas.
- Estes sapatinhos de nuvem também estão de acordo. Talvez se as nuvens fossem mais carregadas, nuvens de chuva, combinassem melhor com a cor dos cabelos, mas ficaram bem, não há dúvida.
Família e convidados já começavam a ficar à vontade, alguns riam, brincavam, outros choravam de emoção. Tudo corria às mil maravilhas. Apenas Xie Kitchin não entendia por que Ilustríssimos ficava falando de cabelo e sapatinhos e não reparava logo no vestido. Acabou perdendo a paciência:
- Mas e o meu vestido?
A mãe ficou uma fera com a insolência da menina mas foi obrigada a se segurar porque, como todo mundo sabe, em Lalande é expressamente proibido fazer escândalo, sobretudo na frente dos Criticantes.
- Ah, sim, o vestido. Está horrível.
Todos ficaram meio tristes, claro, meio desapontados, porque ninguém queria estar na festa de cinco anos de uma menina de vestido horrível. Aos poucos foram saindo de fininho, cada um com uma desculpa qualquer, já conformados com o desfecho da cerimônia. Antes, porém, que todos, inclusive o Criticante, se dispersassem, Xie Kitchin, passado o choque inicial, se plantou bem na frente de Noeros e disse, bem alto para todo mundo ouvir:
- O senhor é cego!
Vocês não têm idéia do que significa dizer uma coisa dessas para um Criticante. É um verdadeiro absurdo. Na verdade, na cabeça do habitantes de Lalande, esta é uma frase completamente sem lógica, porque não faz sentido criticar um Criticante.
Ilustríssimo ficou chocado, não conseguia entender o sentido da frase, sua cabeça virou uma confusão tremenda, imaginem, tentava entender o que estava acontecendo ali: recebera uma crítica, era isso? Nada fazia sentido. Antes que se recuperasse e fizesse qualquer coisa com a menina, a mãe segurou-a pela mão e a retirou rapidinho da sala.
- Vem, minha filha, vamos tirar esse vestido horrível.
Foi então que ela chorou. Chorou bem baixinho, quase não dava para perceber. Mas o irmão mais novo percebeu e deu logo o alarme:
- Olha, gente, chorando que nem um homenzinho! - e cantava debochando: homenzinho, a Xie é homenzinho...
A mãe saiu com ela para o quarto. Quando ficaram finalmente sozinhas, a senhora Kitchin decidiu ter com a filha uma conversa séria, de mulher para mulher:
- Minha querida, você quer ser chamada de homenzinho pro resto da vida? Responde. Claro que não, por isso pára com esse choro. Mulher não chora, aprende isso. E tira esse vestido de uma vez, é tão horrível que nem consigo olhar pra ele.
A mãe saiu do quarto. Xie Kitchin foi até a porta, deu duas voltas na chave e se deitou no chão, de costas, com seu vestido ainda no corpo. Ficou duas horas olhando para o teto, tentando entender um milhão de coisas que estava sentindo. Como tinha parado o choro pela metade, a garganta doía, dava umas pontadas, como se uma lágrima tivesse ficado presa ali, atravessada.
Não achou explicação nenhuma no teto e a dor de garganta foi sumindo, sumindo, sumindo, até sumir de vez.
Então ela tirou a pulseira de água de rio, os sapatinhos de nuvem, e foi dormir com seu vestido de lágrimas de anjo, que na manhã seguinte entraria numa gaveta do armário, para nunca mais sair.
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