Flávio Carneiro
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HISTÓRIAS AO REDOR

Vitória
Cousa, 2020. 162 p.
Histórias ao Redor


O MAIS TERRÍVEL DOS LABIRINTOS

Flávio Carneiro

 

A ideia de um caminho que leva a outro, e este ao próximo, em bifurcações que beiram o infinito, amedronta e atrai a humanidade desde que o mundo é mundo.

Dos vários labirintos conhecidos, o mais famoso talvez seja o de Creta, construído para criar a confusão de quem o desafiasse e no qual vivia à espreita, em algum canto sombrio, um monstro com corpo de homem e cabeça de touro. Apenas o jovem Teseu – guiado pelo amor – conseguiu escapar da morte, com a espada e um longo fio que recebe de sua amada, Ariadne. Com a espada mata o Minotauro, com o fio amarrado na entrada refaz o caminho de volta.

Seria o labirinto de Creta, criado pelo rei Minos na Grécia antiga, o mais temido de todos?

Não, nada disso.

O mais terrível, o mais tenebroso, o labirinto dos labirintos me foi revelado pela minha filha Maria, quando tinha cinco anos.

Brincávamos no gramado de um campo de futebol, em Teresópolis. Eu estava sentado no chão com minha outra filha no colo – Luísa, com dois naquela época. Maria corria pela grama, fazendo voltas e voltas. A certa altura gritou para mim: pai, estou fazendo um laberinto (assim mesmo: laberinto).

Esperei calmamente que ela terminasse sua construção.

Ela então chegou perto de mim e perguntou: onde começa, pai? Apontei para um ponto qualquer. Maria se sentou ao meu lado e ficou olhando para o nada, ou pelo menos para onde algum adulto cego (não dos olhos) só veria o nada.

Depois, meio cansada, a cabeça no meu ombro, disse:

“Muito difícil sair desse laberinto, papai.”

Ficamos os três ali. Luísa no colo, dormindo (sonhava com seus próprios labirintos?), eu e Maria meditando sobre uma possível saída para um labirinto do qual não se vê a entrada, nem as paredes, que não sabemos se abriga no seu interior um Minotauro ou algo pior, que não nos oferece opções, esquerda ou direita, porque não sabemos ao certo onde fica esquerda e direita numa construção imaginária.

O labirinto que eu via não era o mesmo que minha filha estava vendo. O meu mostrava pessoas, lugares, perigos que Maria nunca viu nem vai ver, nem ela nem ninguém porque são apenas meus. O dela, por sua vez, era feito dos seus próprios medos, pesadelos, perdas. No entanto estávamos juntos e só poderíamos, obviamente, sair juntos daquela assombrosa armadilha.

E com a facilidade com que minha pequena arquiteta dos ventos criou seu labirinto, ela mesma achou a saída.

Apanhou na grama uma vareta e brandiu com ela os ares, em movimentos de fada poderosa. Depois me disse, o olhar seguro de quem sabia o que estava fazendo:

“Não precisa ter medo, papai, vamos sair agora desse laberinto. É só usar a minha varinha de cordão!”

E assim fomos salvos do mais terrível de todos os labirintos, graças a uma providencial varinha de cordão.






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