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O MAIS TERRÍVEL DOS LABIRINTOS
Flávio Carneiro
A
ideia de um caminho que leva a outro, e este ao próximo, em bifurcações que
beiram o infinito, amedronta e atrai a humanidade desde que o mundo é mundo.
Dos
vários labirintos conhecidos, o mais famoso talvez seja o de Creta, construído
para criar a confusão de quem o desafiasse e no qual vivia à espreita, em algum
canto sombrio, um monstro com corpo de homem e cabeça de touro. Apenas o jovem
Teseu – guiado pelo amor – conseguiu escapar da morte, com a espada e um longo
fio que recebe de sua amada, Ariadne. Com a espada mata o Minotauro, com o fio
amarrado na entrada refaz o caminho de volta.
Seria
o labirinto de Creta, criado pelo rei Minos na Grécia antiga, o mais temido de
todos?
Não,
nada disso.
O
mais terrível, o mais tenebroso, o labirinto dos labirintos me foi revelado
pela minha filha Maria, quando tinha cinco anos.
Brincávamos
no gramado de um campo de futebol, em Teresópolis. Eu estava sentado no chão
com minha outra filha no colo – Luísa, com dois naquela época. Maria corria
pela grama, fazendo voltas e voltas. A certa altura gritou para mim: pai, estou
fazendo um laberinto (assim mesmo: laberinto).
Esperei
calmamente que ela terminasse sua construção.
Ela
então chegou perto de mim e perguntou: onde começa, pai? Apontei para um ponto
qualquer. Maria se sentou ao meu lado e ficou olhando para o nada, ou pelo
menos para onde algum adulto cego (não dos olhos) só veria o nada.
Depois,
meio cansada, a cabeça no meu ombro, disse:
“Muito
difícil sair desse laberinto, papai.”
Ficamos
os três ali. Luísa no colo, dormindo (sonhava com seus próprios labirintos?),
eu e Maria meditando sobre uma possível saída para um labirinto do qual não se
vê a entrada, nem as paredes, que não sabemos se abriga no seu interior um
Minotauro ou algo pior, que não nos oferece opções, esquerda ou direita, porque
não sabemos ao certo onde fica esquerda e direita numa construção imaginária.
O
labirinto que eu via não era o mesmo que minha filha estava vendo. O meu
mostrava pessoas, lugares, perigos que Maria nunca viu nem vai ver, nem ela nem
ninguém porque são apenas meus. O dela, por sua vez, era feito dos seus
próprios medos, pesadelos, perdas. No entanto estávamos juntos e só poderíamos,
obviamente, sair juntos daquela assombrosa armadilha.
E
com a facilidade com que minha pequena arquiteta dos ventos criou seu
labirinto, ela mesma achou a saída.
Apanhou
na grama uma vareta e brandiu com ela os ares, em movimentos de fada poderosa.
Depois me disse, o olhar seguro de quem sabia o que estava fazendo:
“Não
precisa ter medo, papai, vamos sair agora desse laberinto. É só usar a minha
varinha de cordão!”
E
assim fomos salvos do mais terrível de todos os labirintos, graças a uma
providencial varinha de cordão.
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