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Caminhando pelas ruas de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, o Leitor se depara com uma pequena loja de consertar sapatos. Atrás do balcão, um homem bate o martelo no salto de um sapato velho. Atrás do homem, entre calçados de vários tipos e pedaços de couro pendurados, uma placa de madeira, na qual se lê: Clínica Sapatológica.
O Leitor pára diante da placa por instantes, pensativo. Logo depois senta-se à mesa de um bar em frente, na calçada, à sombra. É de tarde, poucos clientes, pouca gente na rua estreita, e o Leitor lança novamente seu olhar para aquelas duas palavras.
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A tabuleta não passa impunemente diante de seus olhos. Ele pensa no poder do nome. Consertar sapatos, profissão de pouco status, recebe, com os dizeres colocados em destaque, à vista de todos, uma nova tintura. De atividade considerada menor transforma-se em profissão nobre: o modesto cômodo vira uma clínica, o sapateiro agora é doutor.
Ele conserta como quem cura. Cirurgião de sapatos, abre, alinhava, costura, compenetrado em sua missão. Diante de uma sandália caindo aos pedaços, concentra-se, fazendo da salvadora meia-sola um prolongamento da vida.
O Leitor observa o trabalho do outro e de repente seus olhos registram a cena: num rápido instante, um pedaço de couro é alcançado. Nas mãos rápidas e habilidosas do homem, em poucos minutos o pedaço de couro é preparado e colado com precisão no calcanhar de um surrado mocassim. Pronto, conclui o Leitor: fez-se o implante.
O sapateiro está sozinho ali. Não tem sócios, nem empregados. No entanto, é dono de uma clínica. Não se lê: Consultório do Dr. Fulano, Sapateiro. Nada disso, trata-se de algo maior, uma clínica, o nome sugerindo uma complexa rede formada por secretárias, office-boys, representantes de laboratórios, clientes esperando nos sofás, rede que se entrelaça com telefones, computadores, fax, envelopes contendo exames confidenciais, tudo a serviço de uma competente equipe de doutores sapatológicos.
Para se chegar ao sapateiro, parece dizer a placa, poderosa em sua magia, é preciso marcar consulta.
Sobre a placa, a autoridade divina referenda a autoridade terrena: uma bela imagem de São Jorge, protegendo as mãos e iluminando os olhos do cirurgião.
Na mansidão da tarde, sozinho no seu canto, entre couros, colas, pregos, martelos, sapatos, o sapateiro é, mais do que dono de seu ofício, senhor de um segredo: o segredo do nome.
Na memória do Leitor surge o retrato de outra tarde, quando vinha de ônibus pela Avenida Presidente Vargas, na direção da Praça da Bandeira. Distraído, olhou pela janela e à sua direita viu um prédio abandonado, em ruínas. Um prédio de dois andares, um velho sobrado.
Já havia passado por ali diversas vezes, já havia percebido o sobrado, mas dessa vez seus olhos captaram uma novidade. No alto, em letras grandes e desenhadas mas pouco visíveis devido à deterioração provocada pelo tempo, lia-se: Casa das Letras.
Essa outra tarde desenhou-se em sua memória muitos anos antes da anterior, a da Clínica Sapatológica. Era ainda bem jovem e foi para casa pensando nas delícias que aquelas três palavras cravadas numa parede em ruínas prometiam a ele.
Talvez, pensava o Leitor em seu travesseiro, altas horas da noite, fosse um lugar de encontro, abandonado há décadas, onde se reuniam os poetas da cidade, uma espécie de academia e bordel, uma casa de poetas, aconchegante como uma casa, quem sabe, mas agitada, efervescente, cheia de luzes na madrugada.
Em seu delírio, situava a casa nos anos 20, sem saber que nessa época a avenida nem tinha sido construída. Via claramente as mulheres, os homens, poemas sendo recitados, o álcool, amores nascendo e morrendo ali, entre palavras enganosas, promessas, flores e lenços, acordes ao piano.
Maravilhou-se ainda alguns dias, antes de voltar ao local e se informar. O sobrado era originalmente o que ainda é hoje, embora decadente: uma pequena fábrica, verdadeiramente caseira, de fazer letras de metal para fachadas, placas comemorativas, estátuas, nomes de edifícios.
No bar, diante da Clínica Sapatológica, a imaginação do Leitor adulto o faz encontrar-se com o Leitor jovem. O primeiro se admira da expressão de desânimo no rosto do segundo quando ouviu aquilo: uma fábrica de letras de metal...
Hoje, no entanto, o Leitor não está para frustrações e se distrai pensando: o que é uma Casa das Letras? Uma casa, obviamente, onde as letras moram. Não esta ou aquela letra, não se trata da casa de certas letras, mas da casa das letras, quer dizer: de todas as letras.
Se todas elas moram ali, da primeira à última, deduz maravilhado como um menino, então estão ali também todas as palavras. Aquele pequeno sobrado em ruínas guarda tudo o que já foi escrito e, potencialmente, tudo o que será, guarda os rascunhos dos grandes livros, as descobertas, os equívocos.
Na Casa das Letras moram a palavra dor e a palavra êxtase, e o sentimento de dor ou de êxtase de quem lida com as palavras, por prazer ou por ofício, ou, como todos, por necessidade. Moram os discursos das academias, as mais puras e as mais maliciosas declarações de amor, o grito no meio da noite, o sussurro, as verdades dos bêbados, a onomatopéia das ondas do mar batendo com força na praia, e, quieta num canto, entre letras pesadas, mora a palavra silêncio.
Na Casa das Letras, ele se pergunta, onde dormem as palavras casa, das e letras?
A casa é limitada mas parece que não, pensa o Leitor. Entre quatro paredes, chão e teto são traçados todos os limites e transgressões possíveis, tantos que parecem infinitos. Pelo jogo das possibilidades, pelo mistério das combinações, cabe na Casa das Letras o próprio sonho do Leitor jovem, transformado em palavras.
Pela avenida passam diariamente ônibus lotados, carros, motos, caminhões, pessoas aos milhares, sem perceber que tudo o que disseram e dirão até o fim de suas vidas repousa ali, na inocente, esquecida fábrica de letras.
Estão ali, fala o Leitor consigo mesmo, as palavras escritas na tabuleta do sapateiro, agora à sua frente.
O Leitor caminha muito pela cidade, e sua memória mais ainda. A esta lembrança segue-se outra, a de uma peixaria de um português, instalada numa pequena porta no bairro do Catumbi. Entre a descoberta da Clínica Sapatológica e a da Casa das Letras, ele um dia se deparou com aquela porta de metal pintada de azul marinho, desbotada, meio torta, mais escondendo que mostrando seu interior.
Supôs que era uma peixaria apenas porque vira uma senhora saindo dali com um saco plástico cheio de sardinhas e, curioso, resolveu entrar. No ambiente escuro, pobre, um balcão de alumínio. No canto, ao fundo, um velho sentado numa cadeira, cochilando, o avental cheio de manchas. No alto da parede, em letras pequenas pintadas a mão, o Leitor viu: Peixaria Oceano Atlântico.
Quis, num primeiro momento, acordar o velho, perguntar coisas, saber. Pensou num pretexto para puxar conversa, comprar um peixe, saber como se preparava, até começar as perguntas que lhe interessavam, até chegar no nome. Desistiu, encantado ainda com o que lera na parede, e saiu dali sem dizer nada, com uma palavra ecoando em seus ouvidos: pérola.
Era essa a palavra que lhe vinha agora, no bar em Vila Isabel. A pérola do nome.
Se na Casa das Letras moravam ainda todas as palavras, inclusive as escolhidas pelo dono da peixaria para registrar seu espaço no comércio da cidade, no minúsculo cômodo do Catumbi nadavam polvos, lulas, dourados, anchovas, entre algas, pedras, corais. Cabiam ali imensos transatlânticos, pequenos barcos de pesca, navios naufragados e uma imensidão de tesouros escondidos.
Pela porta azul entravam caravelas de um antigo império. Sua terra, tão distante, navegava até ele através do oceano, como antes os conquistadores, e entrava pela porta empenada de sua gloriosa peixaria. Portugal era o oceano, e o oceano estava todo ali, dele. E ele, com seu avental todo sujo, dormia como dorme um rei.
Sonhava?
Era nisso que o Leitor pensava, no possível sonho daquele rei, quando saiu da peixaria. À sua frente, os muros altos do presídio da Frei Caneca surgiam como um doloroso contraste.
O calor insuportável daquela tarde de verão parecia vir de todos os lados, da fumaça e do barulho da rua movimentada, das casas onde o sol batia e voltava como labaredas e rebentava nos muros do presídio. Lá dentro, entre as grades de uma cela, o suor penetrando a pele, alguém dormia sonhando com o mar?
Talvez, pensava o Leitor, em pé diante do presídio da Frei Caneca, talvez lá dentro alguém saiba da existência dessa peixaria e nesse momento evoque o nome Oceano Atlântico como se entoasse uma prece. Todas as praias e a imensidão das águas chegando até ele pela mágica do nome. Um barco no meio do oceano, a liberdade, ainda que imaginada.
O Leitor não sabe o sonho do velho. E o velho certamente não sabe quantos sonhos pode ter provocado com aquelas três palavras mal desenhadas na parede dos fundos de sua peixaria. Fabricador de sonhos, o velho agora saboreia o seu.
É da imagem do velho que o Leitor se lembra agora, enquando toma um gole de cerveja, em homenagem ao calor daquela e dessa tarde. O Leitor vive um daqueles momentos de puro relaxamento, o corpo meio no abandono, solto na cadeira. As pernas esticadas, cruzadas uma sobre a outra debaixo da mesa, um jornal descansando num canto.
A sombra de uma amendoeira convida ao cochilo mas o Leitor não dorme. Confortável, sentado à mesa como se estivesse em casa, observa as pessoas passando e imagina histórias, transformando gente em personagem, inventando geografias. Dá-se o pequeno luxo de estar ali, àquela hora da tarde, lendo, bem à-toa mesmo, vivendo sua felicidade silenciosa.
Passa um grupo de estudantes, de uniforme, apressados, passa um homem de terno, um velho empurrando com esforço a carrocinha de pipoca, uma mulher bonita e descalça. Passa uma bicicleta azul marinho e sobre ela um menino vê rapidamente as horas do relógio de pulso.
Será que agora, em algum lugar da cidade, pensa o Leitor, alguém também pára e observa alguém? Alguém, nesse exato momento, observa na rua alguma coisa parecida com clínica sapatológica, casa das letras, peixaria oceano atlântico?
O Leitor deixa de olhar a rua por instantes, cabisbaixo. Fixa os olhos numa pequena rachadura na calçada durante alguns minutos, mas é como se não visse nada. Olha por olhar, parece cansado. São quase seis horas e um raio de sol atravessa o copo, formando reflexos alaranjados. Como a luz sobre um cristal.
Se levantasse os olhos, o Leitor poderia ver o desenho que o sol fazia no copo e poderia ver também, do outro lado da rua, que o sapateiro parou de trabalhar, saiu de trás do balcão e foi sentar-se no meio-fio. Perceberia que, nesse mesmo instante em que mantém a cabeça baixa, os olhos no chão, do outro lado da rua o sapateiro, sentado no meio-fio, está olhando para ele, pensativo.
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