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Não há muito o que dizer sobre Nihlo, a não ser que nessa madrugada em que o invento ele está olhando, estático, para o gesso bruto sobre a mesinha de mármore.
Vai esculpir seu auto-retrato, antes precisa encontrá-lo. Como se não houvesse a limitação, como se de repente desvendasse o segredo, começa alegre, louco, a talhar o gesso. Pouco depois tem a primeira versão do seu rosto cansado. Acende um cigarro, olha-se branco e firme à sua frente, deixa fugir uma lágrima pelas falhas terríveis da escultura. Raciocinando novamente, começa uma segunda versão.
Amanhece. O sol entrando pela janela, batendo por trás de uma cabeça de gesso, dá-lhe a súbita impressão de ser perfeito esse pequeno retrato, menor que o primeiro, depois de retiradas algumas rugas, algumas linhas dos lábios e testa. Outra vez discorda, não tem esse rosto tão redondo, esse queixo tão fino, esses olhos tão estúpidos, sobretudo esses olhos tão estúpidos. É preciso cortar.
Corta. Leva o dia todo e a noite esculpindo a terceira versão, pronta quando é de novo madrugada. Diante da modelada criatura, agora tão pequena que cabe inteira em sua mão, sente-se deus, o deus pretendido. Mas ainda não porque de novo investe contra o branco e continua talhando-se, toque sobre toque no gesso cada vez menos.
Seu último auto-retrato, beirando o invisível, lembra um perigo. Ainda assim dá-se um último talhe e acontece apenas o que estava previsto desde o início.
Realmente não há quase coisa nenhuma a dizer sobre Nihlo, a não ser que no momento em que o vejo, agora, entra pela janela um vento que balança as cortinas e vai espalhar pelo chão o que antes era um, o que sobrou, pó. Nihlo não percebe o gesso polvilhando o chão, talvez porque esteja morto.
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